O ordinário transfigurado
por uma teologia do milagre
DOI:
https://doi.org/10.46525/ret.v41i1.2021Resumo
O presente artigo ao tratar sobre o tema do ordinário transfigurado, busca contribuir para uma teologia do milagre que forneça uma releitura teológica dos milagres à luz da permanência e do valor do ordinário, dialogando de modo original com a obra de Chesterton e com a tradição teológica clássica e contemporânea. O tema central consiste em compreender o milagre não como ruptura espetacular da ordem do mundo, mas como sinal revelador da presença fiel e contínua de Deus no cotidiano da criação e da história. O problema de pesquisa emerge do contexto cultural contemporâneo, marcado pelo imediatismo, pela busca do extraordinário e pela tendência a reduzir os milagres a resíduos de uma religiosidade pré-crítica ou a meros recursos narrativos. Diante disso, o artigo questiona: como pensar teologicamente os milagres de modo fiel à Revelação cristã e, ao mesmo tempo, significativo para a experiência de fé atual? A hipótese que orienta o estudo sustenta que os milagres, longe de negarem o ordinário, o revelam em sua profundidade sacramental, funcionando como sinais pedagógicos que reacendem o espanto diante de uma criação já sustentada pela graça. O objetivo principal é oferecer uma teologia do milagre capaz de integrar criação, redenção e consumação, articulando tradição patrística, teologia medieval, contribuições do Concílio Vaticano II e reflexões contemporâneas, especialmente a partir de Agostinho, Tomás de Aquino, Rahner, Latourelle e Chesterton. O movimento argumentativo inicia-se com a crítica à compreensão moderna do milagre como exceção arbitrária, avança pela recuperação da visão agostiniana da criação como milagre contínuo, dialoga com a teologia do sinal e da mistagogia em Rahner e Latourelle, e culmina na proposta de uma espiritualidade do enraizamento, iluminada pela sensibilidade chestertoniana. Como resultado, o artigo demonstra que a teologia do milagre oferece importantes implicações espirituais e pastorais, ao educar o olhar da fé para reconhecer a ação discreta de Deus na rotina, fortalecendo uma espiritualidade da permanência, da fidelidade cotidiana e da esperança histórica.

