A justiça social como sinal dos tempos
profetismo, δικαιοσύνη e sinais dos tempos na tradição bíblica
DOI:
https://doi.org/10.46525/ret.v41i1.2027Resumo
A justiça social constitui um eixo estruturante da tradição bíblica, particularmente no âmbito do profetismo de Israel, no qual se manifesta como denúncia sistemática da concentração de poder, da exploração econômica e da marginalização dos pobres. Nesse horizonte, os profetas atuam como mediadores da palavra de Deus, articulando crítica histórica, exigência ética e anúncio de alternativas concretas de vida mais justa e solidária. Essa tradição profética fornece o pano de fundo teológico e semântico para a compreensão da categoria δικαιοσύνη, cujas ocorrências na Septuaginta expressam uma justiça relacional, vinculada à fidelidade à aliança, à defesa dos vulneráveis e à ordenação justa da vida social. Tal herança não se limita ao Antigo Testamento, mas alcança o Novo Testamento, encontrando continuidade na atuação de Jesus de Nazaré e na reflexão teológica da comunidade mateana. No Sermão do Monte, a δικαιοσύνη assume papel central ao retomar e radicalizar o conteúdo profético, ultrapassando o legalismo religioso e concretizando-se em práticas que confrontam estruturas excludentes, redefinem as relações sociais e orientam a busca do Reino de Deus. Inserida em um contexto marcado pela dominação romana e pela mediação religiosa do Templo, a mensagem de Jesus revela uma proposta de justiça integral, profundamente enraizada na tradição profética bíblica. À luz da reflexão de José Comblin, tais expressões podem ser compreendidas como “sinais dos tempos”, nos quais a luta histórica contra a injustiça se apresenta como dimensão constitutiva da fé bíblica. Assim, este artigo propõe uma leitura teológica e contextualizada da justiça social como categoria profética, como expressão da δικαιοσύνη bíblica e como chave interpretativa dos conflitos históricos e dos desafios contemporâneos.

