O corpo ferido, o silêncio e a tragédia
uma análise teológico-literária e performativa de “The Fate of Ophelia” a partir de Shakespare e da prática teológica encarnada
DOI:
https://doi.org/10.46525/ret.v41i1.2041Resumo
O presente estudo analisa a figura de Ophelia, da tragédia Hamlet de William Shakespeare, em diálogo com a canção contemporânea “The Fate of Ophelia”, propondo uma leitura interdisciplinar que articula literatura, música e teologia a partir da noção de corpo ferido. Partindo de uma abordagem qualitativa de caráter hermenêutico-performativo, a pesquisa compreende a performance vocal como prática teológica encarnada, na qual voz, silêncio e vulnerabilidade produzem sentido a partir da experiência vivida. Ophelia é interpretada não como heroína trágica tradicional, mas como símbolo de subjetividades silenciadas e de corpos dissidentes que não encontram reconhecimento nem resolução narrativa. O referencial teórico mobiliza contribuições da teologia contemporânea para sustentar que a reflexão sobre Deus deve partir da experiência concreta do sofrimento, recusando explicações redentoras que neutralizem a dor. Nesse horizonte, a personagem encarna a memoria passionis, isto é, a memória das vítimas cuja dor permanece sem reparação, funcionando como denúncia das estruturas que normalizam o sofrimento. Paralelamente, a fenomenologia de Edith Stein fundamenta a compreensão do corpo como unidade de dimensão física, psíquica e espiritual, enfatizando a empatia como reconhecimento da alteridade irreduzível do outro e como condição para o exercício da liberdade pessoal. Conclui-se que a releitura contemporânea de Ophelia evidencia o corpo vulnerável como locus privilegiado de reflexão teológica e crítica social, mostrando que a arte pode operar como espaço de memória, resistência e produção de sentido diante da violência e do silêncio histórico.

